As sementes que plantamos em nossos filhos
Por Nívea Salgado

Imagem: 123RF
Eu não sei como é na sua casa, mas por aqui as vitórias da maternidade nunca vieram de maneira fácil. E não foi por falta de dedicação: antes mesmo de Catarina nascer, eu tinha lido vários livros sobre recém-nascidos. Eu sabia como “deveria ser” a rotina do bebê, onde ele deveria dormir, técnicas para ninar e amamentar. Na teoria eu estava preparadíssima, mas na prática… Só consegui amamentar de maneira exclusiva por um mês (embora tenha mantido o peito até ela completar nove meses de vida), e as noites bem-dormidas só vieram depois que ela completou um ano e meio de vida.
E justamente por ver que as coisas quase nunca davam certo “de primeira”, eu me sentia uma das piores mães do mundo. Como é que o bebê da vizinha já dormia bem desde o segundo mês? E o da amiga, que comia tudo o que colocavam no prato, como é que ela tinha conseguido esse feito? Sem saber a resposta, eu continuava meu trabalho de formiguinha, fazendo o que eu acreditava ser o caminho certo todos os dias. Mas pra falar a verdade, sem ver muito resultado.
Foi assim que eu mantive a rotina de sonecas diurnas, acreditando que um dia elas ajudariam a garantir um melhor sono noturno. Foi assim também que, quando Catarina chegou aos dois anos (a famosa idade da seletividade alimentar), eu passei a fazer pratinhos lindos, coloridos, só para que ela aceitasse comer alguns legumes e frutas. Sem falar nas crises de birra! Quantas e quantas vezes eu respirei até 100 (porque até 10 era muito pouco) para manter a calma, acolher e explicar. E por muito tempo houve apenas choro e gritos como resposta.
Mas esse texto não é sobre como as coisas foram difíceis na maternidade. É uma carta de esperança vinda do futuro, de uma mãe que hoje tem uma filha adolescente, para você que está passando por tudo isso agora. Venho para te contar que as noites acordadas acabaram, e que minha filha adora dormir (e eventualmente tira sonecas depois do almoço até hoje!). Que ela ama brócolis, vagem, couve-flor, e, mesmo não curtindo uma variedade enorme de frutas, ela come algumas, e leva no lanche da escola todos os dias.
As crises de birra viraram uma piada familiar: costumamos dizer que Cacá chorou todos os dias até os quatro anos! Depois elas foram embora, e deram lugar a uma personalidade forte, é verdade, mas acompanhada de doçura e respeito pelos outros seres humanos.
Claro que nessa nova fase as dificuldades não estão todas resolvidas. Chegou a hora de conversar (e muito!) com minha filha sobre autoestima, limites, uso controlado de tela, relacionamentos, e tantos outros desafios da adolescência. De novo, parece que o trabalho diário da maternidade não gera muitos efeitos. Mas já tendo passado pela experiência, sei que as sementes de amor que jogamos em nossos filhos e são regadas com nosso trabalho diário florescem. E que todo o esforço vale a pena, e que gera frutos lindos lá na frente.





